quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Exercício

Imaginar Chaplin e Keaton, ou Chaplin e Lloyd, a interpretarem, com todos os truques do vaudeville, este conto de Daniil Kharms, o mais chaplinesco dos grandes escritores.


PÚCHKIN E GÓGOL

GÓGOL cai dos bastidores para o palco, onde fica sossegadamente deitado. PÚCHKIN entra em cena, tropeça em GÓGOL e cai.

PÚCHKIN
Que raio é ist...! Será possível: parece o Gógol!

GÓGOL (levantando-se)
Que azar o meu! Já uma pessoa não pode ter sossego. (Dá dois passos em frente, tropeça em Púchkin e cai.) Esta é boa: parece-me que tropecei no Púchkin!

PÚCHKIN (levantando-se) Não há um minuto de sossego! (Dá dois passos, tropeça em Gógol e cai.) Mas que raio! Parece-me que voltei a tropeçar no Gógol!

GÓGOL (levantando-se)
É só incómodos, sempre e em todo o lado! (Dá dois passos em frente, tropeça em Púchkin e cai.) Mas que azar o meu! Outra vez o Púchkin!

PÚCHKIN (levantando-se)
Isto é uma vadiagem, é o que é! Uma vadiagem! (Dá dois passos em frente, tropeça em Gógol e cai.) Raios me partam! Outra vez o Gógol!

GÓGOL (levantando-se)
Isto é estarem a gozar com uma pessoa! (Dá dois passos em frente, tropeça em Púchkin e cai.) Outra vez o Púchkin!

PÚCHKIN (levantando-se)
Mas que calamidade! Uma autêntica calamidade! (Dá dois passos em frente, tropeça em Gógol e cai.) Gógol!

GÓGOL (levantando-se)
Que azar o meu! (Dá dois passos em frente, tropeça em Púchkin e cai.) Púchkin!

PÚCHKIN (levantando-se)
Que calamidade! (Dá dois passos em frente, tropeça em Gógol e cai nos bastidores.) Gógol!

GÓGOL (levantando-se)
Mas que azar o meu! (Sai para os bastidores.) 
(Por detrás do palco, ouve-se a voz de Gógol gritar: «Púchkin!»)

PANO

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Manuel Resende

Às vezes ocorrem-me lembranças que não sei se sonhei ou se foi alguém que mas contou. Certas histórias sobre o Manuel Resende, por exemplo. Creio que foi o Osvaldo Silvestre que me disse que o Resende aprendeu alemão a traduzir O Capital, de Karl Marx, uma palavra após outra, com a ajuda de um dicionário. Mais tarde, traduziu o melhor Freud que li em português. E Brecht, Schnitzler, Kafka. Também já não sei se ouvi ou li, ou talvez tenha sonhado, que o título do primeiro livro do Manuel António Pina, Ainda não é o fim nem o princípio do mundo calma é apenas um pouco tarde, publicado em edição de autor, em 1974, foi-lhe soprado pelo Manuel Resende. Foram colegas de redacção no Jornal de Notícias, companheiros de tertúlia no Piolho e amigos até ao fim. De resto, ainda são amigos e sei que falam todos os dias.

Porque os mortos deitaram o corpo
dentro de nós.

[Resende, 2004]

Li o Manuel Resende muito antes de o conhecer pessoalmente. Comecei pela tradução de A Caça ao Snark, do Carroll, ainda na edição da Afrontamento. Ou pelo menos gosto de acreditar que foi esse o primeiro livro que dele li. Passou muito tempo, mas esse Snark nunca mais se esquece. Nessa altura, eu era ainda muito jovem, tentava desesperadamente escrever poemas e procurava aprender com os mestres. Devorava tudo, sem entender quase nada. Antes do Snark, o Manuel já tinha publicado o seu primeiro livro de poesia, Natureza Morta com Desodorizante, em 1983, na colecção Gota de Água, da INCM, mas só descobri esse livro bastante mais tarde.

E com a licença da Santa Madre Igreja, sabemos que não é o homem que é feito do barro, que o barro é que é feito do homem.
[Resende, 1983]

A primeira vez que troquei umas palavras com o Manuel Resende, disso estou certo, foi para lhe pedir poemas. Eu dirigia uma revista literária, no Porto, e queria dar-me ares de entendido na nobre e misteriosa Ars Poetica. Queria publicar apenas grandes poemas, grandes histórias, grandes traduções. Já não tenho essa revista, devo tê-la perdido, mas julgo que o Resende me ofereceu, sem fazer perguntas, um ou dois poemas do Mallarmé. A sua generosidade e paciência são inesgotáveis. Nunca me negou um conselho, uma dica, um truque para aliviar as minhas dores de crescimento. E não sou o único a quem emendou um texto ou ajudou a corrigir um estilo mais manco.

Já vai faltando tempo para encerrar esta geração e já outras se aproximam,
outras na bicha já espreitam.
E a resposta? Onde está a resposta?

[Resende, 1997]

Um dia, falei-lhe de um autor francês, louco e fabuloso, que tinha acabado de descobrir, creio que numa das revistas estrangeiras que costumava folhear na biblioteca pública: Félix Fénéon. Na volta do correio, enviou-me a versão completa em português das Notícias em três linhas, que ele atirara para o fundo da gaveta por falta de editor. Anos mais tarde, quando lançámos a Colecção Avesso, o seu magnífico Fénéon foi o volume inaugural. Nos balanços da imprensa, alguns críticos e leitores consideraram-no um dos “livros do ano”.

Muito tempo antes do Fénéon, recordo-me de uma sessão que lhe foi dedicada na Fundação Eugénio de Andrade, no Porto. Falou sobre o ofício e leu poemas de vários autores gregos (creio que a Assírio & Alvim já tinha publicado o seu Odysséas Elytis). A certa altura, quando lia a sua versão de Quadro biográfico, de Kiki Dimoulá, começou a chorar e só com esforço chegou ao fim. Naquele mesmo auditório, eu tinha visto o Eugénio de Andrade a chorar da mesma maneira, comovido com a leitura de Vénus, de Camilo Pessanha.

Nessa varanda
nesse sorriso
às tardes, a minha mãe
expõe o rosto
ilegível.
(...)
Senta-se
na pontinha da cadeira
para não pesar na tarde
com todo o peso do seu coração adoentado,
apenas para existir
parada no meio da vida.

[Dimoulá, trad. Resende]

Foi há uns quinze anos, talvez mais, talvez menos. O Manuel Resende deu-me a ler algumas das suas versões dos poemas de Kaváfis. Primeiro, os poemas históricos, os mais famosos, Ítaca, O deus abandona António, Esperando os bárbaros. Mais recentemente, os poemas de amor, os meus preferidos. Como quase todos os leitores que não dominam o grego, eu só conhecia as versões do Jorge de Sena, a antologia do Joaquim Manuel Magalhães e do Nikos Pratsinis, e ainda algumas versões de tradutores brasileiros, que ia respigando aqui e acolá, em especial as versões do Jose Paulo Paes. Mas o Kaváfis do Resende é outra coisa, uma coisa muito diferente. A música que se pressente noutras traduções, é espantosamente transparente em Resende. Os poemas parecem simples, prosaicos, directos, sem truques, sem desvios. E, no entanto, nada mais falso. Cada verso tem uma complexa arquitectura própria, erguida segundo uma prodigiosa lógica matemática, rigorosa, espartana. O que Kaváfis faz com as palavras é um milagre. É isso o que Resende nos dá a ver: o grande prodígio da poesia.

Como se chega a este ponto? A resposta é simples: trabalho. Anos e anos de trabalho. Uma vida de leitura e escrita, até não restarem segredos. Mas talvez esta resposta não seja suficiente. Talvez exista mais alguma coisa para além disto. Talvez seja esse o grande mistério da literatura: o vago fantasma, ágil e luminoso, que escapa à técnica e que jamais conseguiremos aprisionar ou perceber. Toda a angústia do verdadeiro escritor reside nesta dúvida.

Note-se que nove poemas dos 154 canónicos, não os consegui traduzir. Uma ou outra dificuldade surgiu, ou o resultado não me satisfez: a nossa passagem neste mundo, necessariamente curta, nem sempre nos permite chegar a este ou aquele destino.
[Resende, apresentação de 145 poemas, de Konstantinos Kaváfis, 2017]

Texto publicado na edição de hoje do Jornal i



segunda-feira, 4 de dezembro de 2017

Um espelho em movimento



A experiência é relativamente simples de descrever. Um personagem vestido de marinheiro deambula à noite por uma cidade - neste caso, o Porto -, carregando às costas uma espécie de máquina de projecção. A máquina projecta um misterioso filme branco, que ondeia e se dissipa no escuro, a partir das costas do personagem.
A experiência de Tiago Madaleno, fixada e dada a ver através de um conjunto de slides, como numa espécie de filme em stop motion, parece remeter para O Homem da Máquina de Filmar, de Dziga Vertov. Mas o que Tiago Madaleno faz nesta obra, Passos, é como que a ideia de Vertov invertida por um espelho.
O que começa em Vertov, termina em Madaleno. Se Vertov capta a realidade pelo olho da câmara (kino-glaz), Madaleno muda a realidade pelo olho do projector. Se Vertov filma um dia em Moscovo, Madaleno projecta a luz de um filme na noite do Porto. Se Vertov posiciona o personagem - Mikhail Kaufman - atrás da máquina de filmar, Madaleno coloca o seu personagem - ele próprio - à frente da máquina de projectar.
Vertov avançou um século até 2017, Madaleno recuou até Moscovo, 1929. Em arte, o tempo e o espaço não existem. O que existe são ideias que atravessam o tempo e o espaço.



terça-feira, 28 de novembro de 2017

Trabalhos de demolição

Em The First Shot, Federico Francioni e Yan Cheng mostram-nos, de forma exímia, como a memória é uma matéria inteiramente maleável. Qualquer coisa elástica, que pode ser mudada, manipulada, apagada, reconstruída, uma e outra vez, vezes sem conta, até ao limite do inumano.

Nos primeiros planos do filme, a câmara concentra-se nos movimentos de uma máquina de demolição, empenhada em desmantelar um bairro de casas de tijolo, em Pequim. A facilidade com que se derrubam paredes, telhados, casas inteiras onde viveram muitas famílias durante várias gerações, é a mesma com que apagamos certos elementos da nossa memória. As antigas casas de tijolo desaparecem para dar lugar a arranha-céus.



Depois da demolição, há velhos que revolvem silenciosamente os escombros em busca de tijolos que possam ser reutilizados. Uma espécie de melancólica arqueologia, que só pode ser desempenhada por velhos, pessoas que conhecem o valor daqueles tijolos e a maneira minuciosa como se combinam para erguer uma casa. Os velhos respigadores transformam-se assim nos guardiões involuntários de uma certa memória da China.



Mas o filme começa antes da máquina de demolição. Os planos de abertura mostram uma praça debaixo de um violento aguaceiro, em câmara lenta. Grossas gotas de chuva atravessam obliquamente a tela, como balas lentíssimas. Como se existisse uma necessidade urgente de parar o tempo, de voltarmos a olhar para as coisas tal como elas são, frame a frame, fora da velocidade do nosso mundo. A verdade é que nada pode travar o tempo e nenhuma câmara pôde adiar a chuva de balas em Tiananmen.

Planos de rios, lagos, poças de água, atravessam todo o filme. Nenhuma memória pode fixar-se na água. A água apaga marcas, sinais, vestígios, abre fendas na pedra. Numa das cenas, há um personagem que revolve com os pés o fundo de uma poça de água da chuva, num chão de betão. Nada deve permanecer, mesmo no leito dos rios e no fundo dos lagos. Nada deve assentar. Tudo deve estar em constante mudança.



Tudo muda a uma velocidade incontrolável. Os personagens parecem viver num estranho tédio gerado pela desordem. Numa das raras cenas faladas do filme, um personagem que esteve emigrado no Canadá, confessa ter regressado a Wuhan, na China, por não conseguir adaptar-se ao ritmo lento do ocidente. Tédio gerado pela velocidade e pela impressão de um mundo em constante transformação. Este é um dos paradoxos mais curiosos do filme.



Mas o principal paradoxo reside obviamente na supressão da memória numa cultura tão antiga como a chinesa. O regime comunista procura esquecer o facto de o país ser uma das grandes potências capitalistas do mundo. O capitalismo chinês procura esquecer todos os constrangimentos ideológicos impostos pelo comunismo. O comunismo procura esquecer a China anterior à revolução. Os jovens procuram esquecer a história trágica do comunismo. O esquecimento, a falta de memória, a ausência do peso da história, ajuda-nos a viver.



Na cena mais impressionante do filme, a câmara fixa um dos personagens, totalmente nu, de costas, caminhando devagar ao longo da Muralha da China. Um corpo despido, sem roupa, sem história, sem referências, em contraste com o monumento mais importante da história da China e um dos mais importantes da humanidade. Haverá imagem mais poderosa sobre a nossa difícil relação com a memória, em todos os tempos e lugares?

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Il faut nous donner votre argent...

Com a minha carta de bacharel num canudo, trepei enfim um dia para o alto da Diligência, dizendo adeus às veigas do Mondego. Justamente nesse mesmo tejadilho ia um francês, um commis-voyageur. Era um colosso, de lunetas, duro e brusco, com um queixo maciço de cavalo, que, à maneira que o coche rolava, ia lançando através dos vidros defumados um olhar às terras de lavoura, aos vinhedos, aos pomares, como se os sopesasse e lhes calculasse o valor, torrão a torrão. Não sei porquê, deu-me a impressão de um agiota, estudando as terras dum morgado arruinado. Conversei com este animal; ele pareceu surpreendido da minha facilidade no francês, do meu conhecimento do francês, da política de França, da literatura de França. De facto, eu conhecia romancistas, filósofos franceses, que ele ignorava. E ainda recordo o tom de alta protecção, com que me disse, batendo-me no ombro, enquanto nós rolávamos na estrada, vendo em baixo, no vale, o mosteiro da Batalha: 
- Vous avez raison, il faut aimer la France... Il n'y a que ça! Et puis, vous savez, il faut que nous vous fassions des choses, des chemins de fers, des docks, de choses... Mas il faut nous donner votre argent...
Creio que realmente, depois, temos dado notre argent à França, largamente.

Eça de Queirós, O Francesismo, 1886-87.

No próximo sábado, 25 de Novembro, às 17h00, haverá uma leitura e conversa em torno deste e de outros textos de Eça, na livraria da INCM no Porto (Praça dos Leões), com Isabel Pires de Lima. É a primeira sessão das "Leituras da Casa".

quarta-feira, 15 de novembro de 2017

"145 poemas", de Kaváfis



Este livro começou a ser escrito em 1896, demorou vários anos a ser traduzido pelo Manuel Resende, e é apresentado no próximo sábado, 18 de Novembro, às 18h30, na Casa Fernando Pessoa, em Lisboa. É a mais bela e perfeita versão dos poemas de Konstantinos Kaváfis em língua portuguesa. A edição é da Flop.

terça-feira, 14 de novembro de 2017

N.º 10 da Rua Lepsius

[Konstantinos Kaváfis] vivia desde 1907 no segundo andar do n.º 10 da Rua Lepsius, [em Alexandra], microcosmo onde o seu quotidiano se circunscrevia. «Onde poderia eu viver melhor?» Confidenciou um dia. «No andar por de baixo do meu, o bordel trata da carne. Do outro lado da rua há a igreja que perdoa os pecados. E depois, mais adiante, há o hospital, onde morremos.»

Mário Avelar.

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