quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Aprender a escrever com os mestres

No espectro deste conto, os raios principais são o dourado, o vermelho e o lilás porque a cidade está cheia de cúpulas, da revolução e de lilases. A revolução e o lilás estão em plena floração, pelo que é possível, com toda a fidedignidade, tirar a conclusão de que o ano é o de 1919, e o mês é o de Maio.

Evgueni Zamiatine, O Xis. Tradução de Nina Guerra e Filipe Guerra.

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

Deus

Começa a fazer-se tarde.
A festa está no auge.
Os alegres companheiros são todos cor, barulho, amor.
As lindas raparigas, desapertadas, descompostas, abandonam-se. Os seus olhos entrecerram-se docemente, e os seus lábios que se entreabrem deixam aperceber tesouros húmidos de púrpura e de nácar.
As taças, nunca cheias e nunca vazias!
Esvoaçam no ar as canções, ritmadas pelo tilintar dos copos e pelas casquinadas de riso das lindas raparigas.
De súbito, o velho relógio da sala de jantar interrompe o seu tiquetaque monótono e resmungão para ranger raivosamente, como faz sempre quando lhe dá para bater as horas.
É meia-noite.
As doze badaladas caem, lentas, graves, com aquele ar de ralho próprio dos velhos relógios patrimoniais. Parecem dizer-nos que já muitas badaladas deram eles para os nossos avoengos desaparecidos e que ainda muitas mais darão para os nossos netos, quando nós já não estivermos cá.
Sem se aperceber, a nossa alegre companhia pôs uma surdina à sua balbúrdia e as raparigas deixaram de rir.
Mas Albéric, o mais louco da nossa rapaziada, levantou a taça e proferiu, com uma gravidade cómica:
«Meus senhores, é meia-noite. É a hora de negar a existência de Deus.»
Toc, toc, toc!
Batem à porta.
«Quem será?... Não estamos à espera de ninguém e os criados foram dispensados.»
Toc, toc, toc!
A porta abre-se e surge a grande barba prateada de um ancião de grande estatura, trajando uma longa túnica branca.
«Quem é você, criatura?»
O ancião respondeu com grande simplicidade:
«Sou Deus.»
Ao ouvirem esta declaração, todos os jovens sentiram um certo incómodo; mas Albéric, que tinha, decididamente, muito sangue-frio, replicou:
«Isso não o impede, espero, de beber connosco?»
Na sua infinita bondade, Deus aceitou a oferenda do jovem senhor e, passado pouco tempo, já toda a gente estava à vontade.
Continuou a beber-se, a rir-se, a cantar-se.
Já a azulácea manhã fazia empalidecer as estrelas quando pensámos em ir-nos embora.
Antes de se despedir dos seus anfitriões, Deus admitiu, com todo o gosto, que não existia.

Alphonse Allais, 63 Histórias de Humor e 1 Poema Melancólico. Tradução de Filipe Guerra.

segunda-feira, 7 de agosto de 2017

Sector imobiliário

O leitor lê a Caverna, do magnífico Zamiatine, e pensa no Rinoceronte, de Ionesco, e em vários contos de Piñera, e salta para Endgame, de Beckett, e avança para Casa Tomada, de Cortázar, e encontra, claro, A queda da casa de Usher, de Poe.

terça-feira, 1 de agosto de 2017

Allais é grande



Um dos livros mais queridos da nossa Colecção Avesso já chegou. É uma antologia belíssima de Alphonse Allais, 63 Histórias de Humor e 1 Poema Melancólico, com uma tradução magnífica de Filipe Guerra. O design (já não tenho adjectivos) é dos inevitáveis Lina&Nando, responsáveis pelo grafismo da colecção. O livro já está disponível no sítio da editora Exclamação e em breve nas livrarias.

domingo, 30 de julho de 2017

Um postal de Budapeste

Örkény pop

István Örkény é um escritor popular na Hungria. Em qualquer livraria ou alfarrabista podem encontrar-se vários dos seus volumes. Uma amiga que viveu largos anos em Budapeste, disse-nos que muitos húngaros conhecem de cor as suas histórias. Na rua Szent István, perto da estação ferroviária de Nyugati, há uma livraria meio de plástico, que faz lembrar as nossas Bertrand, chamada Örkény István Könyvesbolt, ou seja, Livraria István Örkény. Coisa tão natural como cá existir uma Livraria Camões ou Bocage. O único livro traduzido entre nós, Histórias de 1 minuto, ou Contos de um minuto, na versão de Ernesto Rodrigues (1983), é dos poucos que não conseguimos encontrar nas livrarias que visitamos. Pelos vistos, esgota facilmente. O problema dos húngaros é não saberem português: o primeiro volume das Histórias de 1 minuto, da Cavalo de Ferro (o segundo volume nunca chegou a sair), andou aos pontapés, durante anos, pelas feiras de fundo de catálogo a 1 euro ou menos.
 

Dois postais de Viena

O papel é duro como mármore 

Seguindo as indicações de Cláudio Magris, e atravessando Rossauer Brücke, chegamos a Rembrandtstraße. É uma rua relativamente pequena, cinzenta e silenciosa. Em quase todas as entradas, há placas em mármore ou bronze a lembrar os nomes de cidadãos judeus que foram deportados durante o nazismo. São dezenas e dezenas de nomes, famílias inteiras. No número 35, viveu Joseph Roth. É uma das raras entradas onde não existe qualquer placa. Também não há qualquer referência à passagem de Roth por aqui. Seja como for, uma página de papel com o seu nome será sempre tão sólida e duradoura como uma placa de mármore.
 




Uma pedra e uma trepadeira

O túmulo de Karl Kraus fica próximo de uma das portas secundárias do gigantesco cemitério central de Viena, o Wiener Zentralfriedhof, muito longe dos túmulos de Schubert ou Beethoven. Uma pedra de granito, intencionalmente mal esculpida, exibe apenas o nome. Não há indicação das datas de nascimento ou morte. A campa está coberta por uma densa e tenaz trepadeira, que só à força se conseguiria arrancar. Não existe mais nada. É justo. Uma pedra e uma trepadeira. Podiam escrever-se mil ensaios e nenhum definiria melhor Karl Kraus.


quinta-feira, 20 de julho de 2017

Preparação para Medeia: experiências de química

SENHOR ORLAS (suspira): A vida é um abismo de contradições, Araminthe.
Bem! Vou para o meu gabinete reflectir em tudo isto.
Não posso acreditar que não haja uma solução em que o dever e a felicidade se conciliem.

ARAMINTHE: Eu creio, senhor, que é essa a grande inquietação dos homens, desde que saíram das cavernas para tentar viver em sociedade. Inventaram o casamento para tentar conjugar ao mesmo tempo essas duas noções.

SENHOR ORLAS: Apenas por um curto espaço de tempo, Araminthe. Acredite num homem que tentou essa aventura! O que se passa a seguir é como uma dessas experiências de química em que se deleita o nosso vizinho, senhor Voltaire. Ao princípio, a mistura brilha; depois, a felicidade, que é volátil, evapora-se e não fica na retorta senão o grosso calhau cinzento do dever.

Jean Anouilh, Cecile ou a escola de pais. Tradução de Virgínia Mendes.

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